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Marrocos e passagem para Mauritânia

Parámos mais uma vez para dar uma boleia. Era um rapaz novo, voltava a casa depois de uma semana de trabalho. A casa ficava numa pequena vila, no final da estrada. Convidou-nos para beber um chá e mais tarde para comer e passar a noite na sua casa.

A casa estava pintada em tons de rosa, o tecto era feito de pequenos ramos e sobre eles uma camada de lama misturada com palha. Pela pequena janela, víamos as montanhas mais altas do Norte de África. Pela mesma janela, víamos os animais de Hassam, que estavam a habitar a parte inferior da casa. Uma vaca, três ovelhas e algumas galinhas. Além da parte inferior ser para os animais, também servia de casa de banho. A cozinha era tão pequena, que duas pessoas não cabiam lá dentro.

Comemos à luz dum candeeiro a gás, que era a peça mais importante da sua mobília, uma generosa refeição, de batatas, cebola, alhos e carneiro, chamada terajine. A mulher de Hassam tinha tido um filho há pouco tempo. Pediram medicamentos para os problemas respiratórios que a criança parecia ter. Como não sabíamos o que lhes dar oferecemo-nos para levá-los ate à clínica mais próxima que ficava a 45 km. Além da família de Hassam, levámos outras duas crianças, que também tinham problemas de saúde.

A viagem demorou três horas, muito tempo para fazer 45 quilómetros, mas se tivessem de caminhar até lá, teriam sido dois dias para cada lado. Sabíamos que não estávamos a salvar o mundo, não era essa a nossa intenção. Ajudar quem pudéssemos e como pudéssemos à nossa passagem, esse sim era o nosso objectivo.

Chegámos ao deserto. De Zagora viajámos até Foum-Zguid, Tata, Akka, Farm El Han. As pessoas mudaram de feições, as montanhas foram trocadas por rochas, uma paisagem quase lunar. Manadas de camelos passam devagar, guiadas por Tuaregues. As placas a avisarem de minas sucediam-se umas atrás das outras. O calor era abrasador, fazendo tudo parecer uma miragem. Só no final do dia quando o sol dava vez à lua e as estrelas enchiam o céu, havia um momento de frescura. A atitude da policia também mudara. Agora era mandado parar em todos os postos, que eram muitos. Perguntavam de onde vínhamos, para onde íamos, os documentos e se havia " presentes" para eles. Debaixo da cara séria, das fardas e das armas, eles são fáceis de levar. Um sorriso, um aperto de mão, perguntar como está a correr o dia ou elogiar o seu país, normalmente é o suficiente. O máximo que conseguiram foram umas canetas para despachar a papelada.

O Sahara Ocidental é uma zona problemática. Em 1975, 350.000 marroquinos passaram a pé a fronteira, chamada a marcha verde. Concretizando o sonho de integrar a região em território marroquino. Começou então 16 anos de guerrilha levada a cabo pela frente popular de libertação de Saguia Al Hamra e Rio de Ouro. Estes lutavam pela independência do Sahara Ocidental. A zona nunca foi completamente controlada e o conflito custa a Marrocos 2 milhões de dólares por dia.

Passámos a fronteira para a Mauritânia, a diferença não podia ser mais óbvia. A estrada não existe, a marcar a estrada estão carcaças de carros. Os edifícios governamentais que em Marrocos eram de cimento, aqui, são barracas feitas de madeira e zinco. Caricas com pregos espetados ao centro, seguram os cartões que revestem as paredes. Os polícias dormem sobre colchões esburacados no chão. Intrujas andam há caça, desde o primeiro momento que saí, para me "ajudar" a destrocar dinheiro e na papelada.

Vou de barraca em barraca, sempre com um sorriso, digo que não preciso de ajuda. Eles insistem. No carro a Annemiek espera, também ela com ajudantes. Tentam enganar-me uma, duas, três vezes, a técnica da diplomacia não estava a resultar. Um deles punha-me o braço e falava num tom agressivo. Já chega, com um grito, digo que desapareçam, ponho o dedo na cara daquele que me agarrou, olhos nos olhos.... ele recua. Dou mais um grito na direcção do carro, para que aqueles que estavam à volta da Annemiek desapareçam. Foi suficiente, todos entenderam que dali não levavam nada.

Mais uns quilómetros e outro posto militar. Um homem à civil, pergunta se posso vender-lhe cinco litros de gasóleo.

- Sim posso ajudar, não tem de pagar nada, podia acontecer a qualquer um. No mesmo momento, um militar de cara coberta pede-me os papéis e sem mais perguntas pede " presente", o homem à civil tira-lhes os papéis e damos de volta.

- Não tem de pagar nadar, são meus amigos. Enquanto dou o gasóleo ao tal homem descubro que ele é alguém importante. Dá-me o seu número de telemóvel, dizendo.

- Se tiveres problemas com a polícia telefona-me, não tens de pagar nada a ninguém.

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